O governo federal afirmou que já está adotando medidas de preparação diante da previsão de formação de um novo El Niño em 2026. O tema foi citado pelo ministro do Meio Ambiente e Mudança do Clima, João Paulo Capobianco, durante pronunciamento em rede nacional alusivo ao Dia Mundial do Meio Ambiente.
Segundo o ministro, a chegada do fenômeno climático aumenta a preocupação com eventos extremos no país, especialmente queimadas em regiões mais secas. Capobianco afirmou que o governo reforçou o monitoramento, ampliou o contingente de brigadistas, aumentou o número de aeronaves e equipamentos de prevenção e combate a incêndios florestais, além de apoiar os Corpos de Bombeiros dos estados mais atingidos por queimadas.
Apesar de o risco de incêndios ser uma das preocupações nacionais, no Rio Grande do Sul o impacto mais associado ao El Niño costuma ser outro: aumento da chuva, temporais, elevação de rios, alagamentos e inundações. O Estado é considerado uma das regiões brasileiras mais sensíveis à atuação do fenômeno, principalmente porque o El Niño favorece o transporte de umidade da Amazônia para o Sul do Brasil, intensificando sistemas de baixa pressão, frentes frias e instabilidades.
De acordo com análises do Instituto Nacional de Meteorologia, o Rio Grande do Sul tende a registrar volumes de chuva acima da média em períodos de El Niño, com maior atenção para a primavera. O Noroeste gaúcho aparece entre as áreas que podem apresentar desvios positivos de precipitação em diferentes trimestres, o que exige acompanhamento constante por parte de produtores rurais, prefeituras, Defesa Civil e população.
A Organização Meteorológica Mundial também alertou para a necessidade de preparação diante da provável formação do El Niño. O órgão aponta que o fenômeno costuma elevar as temperaturas globais e alterar os padrões de chuva, aumentando a chance de extremos climáticos em várias regiões do planeta.
No Rio Grande do Sul, o governo estadual e a Defesa Civil já vêm tratando o tema como prioridade. Em maio, o Estado anunciou a antecipação de ações de proteção, com governança integrada junto a municípios considerados mais vulneráveis a eventos climáticos. A medida prevê diálogo direto com prefeituras, atualização de planos de contingência e uso de informações de meteorologia, hidrologia e geologia para reduzir riscos à população.
A Defesa Civil gaúcha informou que todos os 497 municípios do Estado contam atualmente com planos estruturados de preparação e resposta a eventos climáticos extremos. Também houve ampliação de equipe técnica, investimento em radares meteorológicos e ferramentas de modelagem para acompanhar o comportamento de rios em áreas de risco.
Tragédia de 2024 reforça necessidade de prevenção
A memória das enchentes de 2024 ainda serve de alerta para o Rio Grande do Sul. Naquele período, o Estado enfrentou uma das maiores tragédias climáticas de sua história, com centenas de municípios atingidos, milhares de famílias fora de casa e graves prejuízos humanos, sociais e econômicos.
Especialistas destacam, no entanto, que a tragédia de 2024 não pode ser atribuída exclusivamente ao El Niño. O fenômeno atuou como um dos fatores que favoreceram as chuvas, mas o desastre foi resultado da combinação de vários elementos, como frentes frias estacionárias, bloqueios atmosféricos, grande transporte de umidade e aquecimento anômalo do Oceano Atlântico.
Por isso, meteorologistas reforçam que a possível volta do El Niño em 2026 não significa, automaticamente, a repetição de uma tragédia semelhante. Ainda assim, o cenário exige atenção, planejamento e resposta rápida diante de alertas oficiais.
Agricultura também pode ser afetada
No campo, o excesso de chuva pode trazer impactos importantes. Em períodos de El Niño, culturas de inverno, como trigo, aveia e cevada, podem sofrer com excesso de umidade no solo, dificuldade de manejo, aumento de doenças e problemas nas fases de floração, enchimento de grãos e maturação.
Para a safra de verão, os efeitos dependem da intensidade e da distribuição das chuvas. Em algumas situações, a umidade pode favorecer o desenvolvimento inicial das lavouras; em outras, o excesso pode prejudicar o plantio, causar erosão, dificultar aplicações e comprometer áreas de baixada.
Produtores rurais devem acompanhar boletins meteorológicos, avisos da Defesa Civil, orientações da Emater, cooperativas e entidades ligadas ao setor agropecuário.
Atenção deve ser permanente
As projeções mais recentes indicam alta probabilidade de formação do El Niño ao longo de 2026, com possibilidade de persistência até o fim do ano e influência sobre o clima em 2027. Ainda há incerteza sobre a intensidade do fenômeno, mas os órgãos meteorológicos recomendam preparação antecipada.
A orientação à população é acompanhar os alertas oficiais, evitar deslocamentos durante temporais, não atravessar áreas alagadas, manter calhas e bueiros desobstruídos e comunicar situações de risco à Defesa Civil pelo telefone 199 ou ao Corpo de Bombeiros pelo 193.
No caso do Rio Grande do Sul, a palavra de ordem é prevenção. O El Niño não determina sozinho a ocorrência de desastres, mas aumenta a probabilidade de eventos extremos quando combinado a outros fatores atmosféricos. Por isso, o monitoramento contínuo será fundamental nos próximos meses.