Ex-secretária e dois veterinários são presos por suspeita de eutanásias sem justificativa contra animais no RS
Caso investigado em Canoas envolve suspeitas de mortes irregulares de cães e gatos atendidos pela Secretaria de Bem-Estar Animal. Polícia apura se procedimentos foram realizados sem necessidade clínica e com possível fraude em registros.
Publicado em 15/06/2026 07:58
RIO GRANDE DO SUL

A Polícia Civil prendeu, nesta segunda-feira, 15 de junho, uma ex-secretária de Bem-Estar Animal de Canoas e dois médicos-veterinários suspeitos de envolvimento em eutanásias sem justificativa contra animais no Rio Grande do Sul. O caso, que causou forte comoção entre protetores, tutores e entidades ligadas à causa animal, é mais um desdobramento de uma investigação que apura a morte de cães e gatos que teriam passado por atendimento ou acolhimento na estrutura pública do município.

A apuração gira em torno da suspeita de que animais tenham sido sacrificados sem que houvesse indicação clínica suficiente, sem o devido esgotamento de alternativas de tratamento e, em alguns casos, com possível irregularidade em laudos e documentos. A investigação também busca esclarecer se os procedimentos eram usados como forma de reduzir custos, abrir espaço em abrigos ou aumentar a rotatividade de atendimentos.

Segundo informações já reunidas pela Polícia Civil ao longo da investigação, o caso ganhou força após denúncias de protetores, ex-funcionários e pessoas que relataram desaparecimento ou morte de animais levados para atendimento. Em fases anteriores da chamada Operação Carrasco, agentes cumpriram mandados de busca e apreensão em endereços ligados aos investigados, incluindo a sede da Secretaria de Bem-Estar Animal, residências e locais vinculados à atuação da ex-gestora na causa animal.


Reprodução/RBS TV e Instagram

Durante as diligências, a polícia recolheu documentos, computadores, registros de entrada e saída de animais, informações de microchips e materiais que passaram a ser analisados para tentar identificar quantos cães e gatos morreram, em quais condições e sob responsabilidade de quais profissionais. Em uma das fases da investigação, animais mortos foram encontrados armazenados em freezer, o que aumentou a repercussão do caso e levou a novas apurações sobre a destinação dos corpos e a documentação dos óbitos.

A Polícia Civil já havia apontado, em etapas anteriores, que o número de eutanásias registrado no período investigado seria considerado elevado. Um caderno entregue por uma ex-funcionária teria indicado centenas de mortes de animais sob responsabilidade da pasta. A suspeita dos investigadores é de que parte desses procedimentos não tenha seguido os critérios técnicos exigidos para uma eutanásia legal e ética.

No Brasil, a eutanásia animal é um procedimento permitido apenas em situações específicas, quando há sofrimento intenso, doença sem possibilidade de recuperação, risco sanitário ou outra condição devidamente justificada por avaliação técnica. O procedimento deve ser conduzido ou supervisionado por médico-veterinário, com registro adequado e observância das normas do Conselho Federal de Medicina Veterinária.

A diferença central da investigação está justamente neste ponto: a polícia apura se os animais realmente estavam em situação irreversível ou se foram mortos de forma indevida, sem necessidade clínica comprovada. Caso fique demonstrado que houve sacrifício sem amparo técnico, os envolvidos podem responder por maus-tratos, falsidade ideológica e associação criminosa, entre outros crimes que venham a ser identificados no decorrer do processo.

A ex-secretária investigada já havia negado anteriormente ter determinado eutanásias de forma indiscriminada. Em manifestações públicas, ela afirmou que os procedimentos eram realizados por veterinários, com critérios técnicos, e que muitos animais chegavam em estado grave, vítimas de atropelamentos, abandono, doenças avançadas ou sofrimento extremo. A defesa também sustentou que as acusações seriam baseadas em denúncias sem comprovação e que não houve intenção de economizar recursos às custas da vida dos animais.

Apesar das negativas, a polícia sustenta que há elementos suficientes para aprofundar a investigação e responsabilizar os envolvidos, caso as suspeitas sejam confirmadas. A prisão da ex-secretária e dos dois veterinários representa um novo capítulo de um caso que mobiliza a comunidade de Canoas e reacende o debate sobre transparência, fiscalização e controle em políticas públicas de proteção animal.

O episódio também provoca questionamentos sobre a estrutura dos serviços municipais de acolhimento e atendimento veterinário. Entidades ligadas à causa animal defendem que municípios tenham protocolos claros para triagem, tratamento, adoção, eutanásia e descarte de corpos, com registros acessíveis e fiscalização permanente. Para os protetores, a morte de um animal sob tutela pública precisa ser sempre documentada, justificada e comunicada de forma transparente.

A Prefeitura de Canoas, em manifestações anteriores sobre o caso, informou que recebeu as denúncias com indignação, que colabora com as investigações e que abriu procedimentos internos para apurar eventuais irregularidades. A administração municipal também afirmou que o cuidado com os animais segue sendo prioridade e que medidas administrativas poderiam ser tomadas conforme o avanço das apurações.

Até o momento, os investigados são tratados como suspeitos, e a responsabilidade criminal dependerá da conclusão do inquérito, da análise do Ministério Público e de eventual decisão da Justiça. O caso segue sob investigação.

Entenda o caso

A investigação começou após denúncias sobre o aumento expressivo no número de eutanásias de cães e gatos em Canoas.

A Polícia Civil apura se animais foram sacrificados sem necessidade clínica ou sem documentação adequada.

Em fases anteriores da operação, foram apreendidos documentos, computadores, registros de animais e informações de microchips.

Também foram encontrados animais mortos armazenados em freezer, o que reforçou a apuração sobre a destinação dos corpos.

A ex-secretária e profissionais ligados à área veterinária são investigados por possível envolvimento nos procedimentos.

As defesas negam irregularidades e afirmam que os atendimentos seguiam critérios técnicos.

O que diz a lei

Maus-tratos contra animais é crime no Brasil. Quando a vítima é cão ou gato, a pena pode chegar a cinco anos de reclusão, além de multa e proibição da guarda. A eutanásia, por sua vez, não é proibida, mas só pode ocorrer em situações justificadas, com avaliação técnica, registro adequado e respeito às normas veterinárias.

Repercussão

O caso causou indignação entre protetores independentes, ONGs e moradores de Canoas. Nas redes sociais, defensores da causa animal cobram transparência, punição em caso de crime e criação de mecanismos mais rígidos de controle sobre animais acolhidos pelo poder público.

A investigação segue em andamento.

 

Fonte: G1

Comentários
Comentário enviado com sucesso!